quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Olhos de saudade....


Meus olhos ficam verdes quando eu choro. Verdes co...
Meus olhos ficam verdes quando eu choro. Verdes como os do meu avo. Herdei os olhos dele para chorar. Os do pai, castanhos, para o dia-a-dia. Sendo assim, posso decidir se uso os olhos claros ou escuros. Não que sejam verdes para a tristeza e castanhos para a alegria. Não. Bem longe dissé. Porque felicidade também chora.
Tem dias em que eu perco os olhos. Não ficam verdes nem castanhos. Só da cor do pensamento. O pai dizia que é quando a gente vai embora e esquece de levar a gente junto. Então, imagino eu-olhos-verdes acenando para eu-olhos-castanhos, que, do outro lado da rua, já vai. Feito mãe e pai quando ele ia fazer viagem comprida, ela se despedia na garagem, e ele, a mala de couro marrom, voltava mais velho, a mão cheia de chocolate diferente que a gente esperava uma vida pra ganhar.
Por que é que, no meio de tudo, eu volto a ser pequena? Talvez a adulta, olhos castanhos e concentrados, esteja parada do lado de lá, acenando para a pequena, olhos verdes de chorar - choro de triste , não de medo-, que insiste em se enfiar no meio das palavras de todo texto. Se eu contasse a ela, à de olhos verdes, que agora eu queria que só ficasse a outra, de olhos castanhos do pai, esta aqui choraria - de medo de ser sozinha - e as duas teriam os olhos verdes, feito os do avo. Olhos de chorar.
Tem dia, assim de triste e de medo, que eu queria só os olhos claros dele. O que eu herdei (esqueci de contar) são verdes para chorar com luz acesa - ou luz do dia. Se eu os tivesse claros sempre, talvez assim, o moço tivesse percebido que, enquanto beijava meus ombros, eu chorava no travesseiro. E se fosse um beijo no pôr-do-sol, eu vestiria os olhos verdes, ele notaria e deixaria de beijar porque eu não queria nada aquele beijo.
Herdei os olhos da mãe e os do pai para dias de sentir-tudo. Olhos misturados. A avó dizia que os meus, os meus olhos, eram duas esmeraldinhas na caixinha de jóias de veludo preto. A pedra ficava verde-braveza com aquele fundo. Era bonita, mas o veludo... o veludo era tão mais macio de a gente perder os dedos nele e deixar a esmeraldinha de lado.
Herdei os olhos verdes da minha mãe para chorar. Os do pai, castanhos, para quando os dias seguem. No fim, faço olhos de verde-escuro, daquela cor mais sozinha da caixa de lápis.
É verde-saudade.
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