terça-feira, 28 de setembro de 2010

Consideramos justa, toda a forma de amor....


Em breve vamos ter uma casa na cidade e  no campo, como diz na música, cheia de livros
quadros e discos, amigos nem sempre, porque queremos tempo pra gente.
Eu quero tempo pra gente. Tirar uma semana de folga só pra te namorar o dia inteiro
e brigar contigo por causa das tuas crises de toc que me causam bons minutos de riso.

A primeira coisa que vamos pregar na parede de casa será a letra daquela tua música que tu cantou no dia em que a gente se conheceu as seis da manhã na saida de uma festinha Punk Rock. Não sei bem a simbologia disso tudo, mas aquela mensagem decorada e de amor parecia fazer sentido.
As estantes serão limpinhas e os livros guardados pra não dar motivo dos teus quadros e gaitas se espalharem por todos os cantos da casa. O seu bom dia vai ser a música, por algumas vezes. E o meu.. você pode escolher.
Nossa cama vai ser bem grande que é pra você não ter que ficar de braço dormente pra me caber e não morrer de dor nas costas por querer passar a noite do seu lado.

Vamos ter um filho e meio, porque eu quero um e você quer três e assim fica tudo certo.
Eu vou continuar te dando um banho nas cantadas baratas machistas enquanto você continua com suas frases bregas e clichês de mulherzinha.
Vou continuar dizendo que teu beijo é o mais delicioso mesmo que tu seja o namorado mais ciumento do mundo.
Durante o dia você vai me empurrar comida como sempre e, durante a noite, alguma bebida alcoólica pra me agarrar no corredor e assim mesmo reclamar das minhas mini saias. Eu vou tentar aprender alguns pratos modernos pra fazer pra gente, tipo arroz e feijão.
Como eu sei que será em vão, já aviso que tu irá preferir continuar preparando nossa comida.
Vamos continuar usando nossas roupas que não combinam entre si nem mesmo pra uma festa brega.
Vamos continuar comendo no mesmo prato e enchendo a cara de vinho e espumante.
Todo dia, eu vou te perguntar, naquele tom ameaçador: você é um homem ou coca cola ? Porque toda ação tem uma reação e a tua é a melhor.
Você vai me ensinar pintar e tocar decentemente enquanto eu te ensino a ficar três metros distante de mim.
Você vai tocar violão e cantar enquanto eu escrevo meus textos e analiso as redes sociais de exposições de arte e as musicas.



Até porque, no fim das contas, tu vai ficar careca e eu vou ficar velha surda e a gente vai continuar se amando, porque até da minha cara torta e dos meus olhos coloridos tu gosta e eu, um dia, vou fazer massagem nas tuas costas a noite inteira e te deixar ler meus textos antes de dormir.
Eu prometo!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma

Ela já havia sido de tudo que era ritmo.
Quando criança era as Cantigas de Roda. Brincava de se esconder, de se encontrar e de jogar-se no chão. Espalhava-se em alegria por onde passava. Arrancava sorrisos apenas por sorrir. Cantava desafinado, gritava sem ficar rouca, dançava sem saber os passos.
Quando adolescente, foi Metal, Punk e Rock.
Era o grito de todas as vozes, de todas as legiões, da sua própria geração. Era o protesto, o barulho que incomoda os vizinhos, a melodia que parece mais um abalo sísmico.
Um dia foi o Samba em plena avenida de cores e folia. Rodopiava a cada passo em volta de si mesma. Já foi Marchinha, Música de Bamba, Batuque e Mpb. Ganhou festivais, apareceu na tv, se fez ouvir nos rádios.
Mas um dia, o amor que era uma Balada fez tudo virar Bossa Nova. Batucava os dedos em cada caixinha de fósforos que encontrava pela cozinha. Cantarolava na acústica da casa vazia. Logo a Bossa Nova virou Fado. E há de se ter alguma tristeza para um Fado ser bem cantado. Traduzia em canto aquela solidão que a tudo engolia.
Perdeu o tom, o dom... Virou silêncio.
Ela queria se lembrar de todos os ritmos que já havia sido. Pensava no que mais poderia ser além da ausência de som que a tudo consumia. Queria ser a Melodia que ninguém mais conhecia, da qual ninguém se lembrava. Sentiu saudade de ser Samba, mas agora seu batuque tinha outro ritmo. Reinventou-se num Chorinho. Queria engolir tudo que a sufocava, desatar de vez aquele nó na garganta. Entoou um Jazz. E ela que já havia sido tudo que é ritmo, passou a ser tudo quanto era instrumento. Só pra se reinventar mais uma vez.
Passou a ser o atabaque, o tambor, a guitarra, o piano, o saxofone que soa às 3 da manhã em qualquer lugar. 

E agora, depois de ter sido tantos e tantos ritmos, descansa da vida sendo um delicioso Blues dedilhado num violão de madeira lustrosa.

Uma alma gêmea é alguém cujas fechaduras coincidem com nossas chaves e cujas chaves coincidem com nossas fechaduras. Quando nos sentimos seguros a ponto de abrir as fechaduras, surge o nosso eu mais verdadeiro e podemos ser completa e honradamente quem somos. Cada um descobre a melhor parte do outro.

Há de se ter beleza em cantar a vida "entre uma balada e um blues"


Totally in love



* “Entre uma balada e um blues” é título de uma música do Oswaldo Montenegro
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